Resultado da inspeção não deve representar avanço para a retomada das exportações de outras carnes

Um grupo de fiscais sanitários da União Europeia terminou na semana passada uma longa e rigorosa avaliação do nosso sistema de produção de aves e de mel, e chegou à conclusão de que não há impedimentos pra que estes produtos voltem a ser exportados pra o seu mercado. Os embarques estavam suspensos desde o dia 3 de setembro, quando o bloco europeu proibiu a importação, além destes dois itens, das carnes bovina, suína e de peixes, e ainda de ovos, do Brasil, por conta de uma suposta incapacidade nossa de dar garantias de que a gente não tá usando antimicrobianos na criação dos animais. Claro que o resultado desta inspeção foi importante, e mereceu a comemoração de produtores e autoridades, mas ao contrário do que muita gente chegou a pensar, ela não significa que a situação das carnes, especialmente no caso do boi, possa ser também resolvida da mesma maneira.
Independentemente das grandes diferenças, começando pelo tempo necessário pra produzir cada um destes itens, a questão é que a União Europeia tá especialmente irredutível no caso da carne bovina, o que só reforça a suspeita de que, na verdade, esta é mais uma entre tantas outras barreiras protecionistas disfarçadas de medida sanitária que os fazendeiros lá do outro lado do Oceano Atlântico conseguem levantar contra o nosso produto. Ao longo desta novela de roteiro mal ajambrado, o Brasil fez uma imensidade de reuniões, mandou documentos e explicações técnicas, decretou proibições de produtos e tomou uma série de providências que poderiam atender pelo menos em parte o que tava sendo pedido pelos dirigentes europeus, tudo dentro de um prazo razoável pra evitar a pior decisão. Mas nada disso adiantou, porque a verdadeira intenção deles não era conversar, mas simplesmente fechar o mercado pra nossa carne.
E repare ainda o amigo pecuarista brasileiro que o motivo apresentado pra tentar justificar a proibição de entrada do nosso produto não foi uma hipotética contaminação por substâncias proibidas, mas sim, como eles disseram, a incapacidade do Brasil de oferecer garantias de que a carne não estaria contaminada. Outra questão que tá provocando forte indignação na cadeia produtiva do setor é que a decisão foi tomada poucos meses depois da assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, que deveria facilitar as nossas exportações pra lá, mas que deixou os fazendeiros europeu profundamente incomodados com a concorrência e com a nossa competência. E não é à toa, né, porque enquanto o Brasil vende a arroba do boi na faixa de 67 dólares, o preço da Irlanda, que é o maior produtor de carne do bloco, é de nada menos que 112 dólares.